Meu relacionamento com pessoas do sexo masculino sempre foi um tanto quanto conturbado. Um misto de repulsa e desejo. Um ódio alimentado que sucumbiu à percepção da fragilidade da paixão. Ainda assim resisti. Não iriam me ter sem sofrimento nem dúvida nem tortura. Afinal, para que eles servem? Não vivi bem até aqui, sozinha, com mãe e irmã? Não há espaço para você. E assim se arrastaram os meses. E assim fui tapando o sol com uma peneira bem fajuta. Quando dei por mim, estava experimentando um incômodo nunca antes sentido, uma saudade de não sei o quê, uma vontade de voar sem igual, uma cumplicidade que não sabia poder existir. E ao perceber isso, me apavorei. Mas não fui covarde, decidi tentar. Larguei todas as minhas crenças, preconceitos, ideais, medos... Medo não, melhor diria pavor de me machucar. Sim, o que construí para mim foi um pavor imenso de me entregar, de deixar meu coração indefeso nas mãos de um monstro, ou seja, um homem. E antes que pudesse voltar atrás, decidi me entregar. Vivi a coisa mais linda que eu jamais poderia imaginar. Descobri sentimentos e sensações que se eu pudesse obrigava a todos a experimentar. Simplesmente não dá para explicar em palavras. Apenas quem já amou e foi correspondido à altura sabe do que eu estou falando. E quando isso ocorre na adolescência, quando o mundo é novo, o corpo é novo, a mente é nova, tudo toma uma dimensão indescritível. É como se você respirasse o ser amado. Ser compreendido sem palavras, ser surpreendido com a perfeição da escolha, compartilhar lágrimas de puro êxtase... Não, não dá para explicar. Isso precisa ser vivenciado. Uma vez eu vi o amor: tive uma epifania enquanto era rodopiada no ar. Foi como se não possuísse corpo, não havia peso, havia apenas um campo ensolarado coberto de tulipas... amarelas. Descobri então que o amor é amarelo, e não vermelho como imaginava. E descobri também que o amor não é cego e nem transpõe todas as barreiras. O amor machuca, humilha, te destrói para te fazer cativo. Mas te eleva a níveis de felicidade não alcançados de nenhuma outra forma. Mas como então viver o lado bom sem o lado mesquinho do amor? Sinceramente não sei... Parece que os relacionamentos possuem uma forma bem peculiar de se deteriorarem. É peculiar porque nós vemos, eu vejo, você vê. Mas ou ignoramos a situação ou até mesmo contribuímos para a ruína. Viver na corda bamba cansa. Mas ainda não encontrei nada mais recompensador na vida. Talvez o amor incondicional, pelo próximo, pelo estranho, aquele amor que não espera nada em troca. Mas esse amor é tão difícil de praticar... Por mais que pratique esse amor universal, sinto falta do amor a dois, do amor romântico, do amor paixão. Sempre fui uma sonhadora. Mas antes da entrega, sonhava com os dois pés fincados no chão. Sonho é sonho, realidade é sofrimento. Após minha vivência inesquecível, maravilhosa, conturbada, violenta, surpreendente, agonizante, torturante, deliciosa, resolvi nunca mais deixar de viver nada por medo. Não há recompensa por fazer nada. Não há ganho sem perda. Não há escolha que não exclua algo. E, principalmente, não há acerto sem erro. Ao ficar escondida em casa por medo de se entregar e errar, uma pessoa nunca irá acertar. Não se acomode no marasmo do medo da dor. Entregue-se, machuque-se, levante-se, extasie-se, brigue, erre, aceite, acerte. Então, está esperando o quê?