domingo, outubro 16, 2005

Gaiola

Ando tendo muitos saudosismos.
Saudosismo do que eu realmente nunca tive.
Por que escolher justo uma gaiola?
Deve ter sido meu primeiro presente,
meu primeiro brinquedo de infância...
Mas e agora? Apeguei-me tanto...
Acho que sou um pouco materialista e egoísta.
Não quero me desfazer da gaiola.
Ou não consigo?
Poucas grades e falta tanto ar aqui dentro...
Acho que me acostumei à metade das coisas.
Metade do ar, metade do riso, metade da vida.
Metade de mim?
Talvez. Só não quero agonizar pra sempre.

quinta-feira, junho 30, 2005

AmorTal

A mulher é mortal por seus desejos e imortal por seus amores.
AmorTal.
Sublime.

Imortal

"O homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos."

(Pitágoras)

segunda-feira, maio 09, 2005

Gentileza

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto
À você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta

quarta-feira, abril 27, 2005

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

(Cecília Meireles)



domingo, abril 24, 2005

Canteiros

Quando penso em você

fecho os olhos de saudade

Tenho tido muita coisa,

menos a felicidade

Correm os meus dedos longos

em versos tristes que invento

Nem aquilo a que me entrego

já me traz contentamento

Pode ser até manhã,

cedo claro feito dia

Mas nada do que me dizem

me faz sentir alegria

Eu só queria ter no mato

um gosto de framboesa

Prá correr entre os canteiros

e esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço

prá tanta tristeza

E deixemos de coisa,

cuidemos da vida,

Pois se não chega a morte

ou coisa parecida

E nos arrasta moço

sem ter visto a vida...

Fagner
Sobre poema de Cecília Meireles

segunda-feira, abril 18, 2005

Atemporal

Sinto tão intensamente quanto se pode sentir
Do paraíso ao limbo em um segundo
E pergunto: sou eu?

Capaz de construir ou castrar
Provocar ou remediar
Começar ou terminar

Intercalando sentimentos
Tropeçando no tempo
Quando parar?

Ah, está tudo na mesa
Misturado, enevoado
Quando arrumar?

Tarde demais não, apenas atemporal...
Sentimentos são atemporais
Até quando?

terça-feira, abril 12, 2005

You Always Saw The Blue Skies

I'm turned around and lost out here again
Feeling like there's no way out and without you no way in
Where are you my friend?
I know how hard it is to keep from crying out loud
To look up in the sky and see nothing but clouds
The last thing you said "you know my hope never dies"
No matter how dark it was you always saw the blue skies

Oh I'm sick and tired of yesterday
I think of all the times I chose the worst things and I threw the best away
What would you say?
I know how hard it is to keep from crying out loud
To look up in the sky and see nothing but clouds
The last thing you said "you know my hope never dies"
No matter how dark it was you always saw the blue skies

I just hope this road keeps turning
'Til I find a place to end this yearning

Where are you my friend?
You know how hard it is to keep from crying out loud
To look up in the sky and see nothing but clouds
The last thing you said "you know my hope never dies"
No matter how dark it was you always saw the blue skies
No matter how dark it was you always saw the blue skies
No matter how dark it was you always saw the blue skies

(Composição: Frankie Miller / Will Jennings
Intérprete: Bonnie Tyler)

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimaraens)

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões não tirava de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto que acordava
meu coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se no bem, no mal,
de cada abismo, o meu mistério.
Veio dos rios, das fontes,
de rubra escarpa da montanha,
do sol que me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
ante meus olhos, como um demônio.

(Edgar Allan Poe)