domingo, junho 21, 2009

Tudo o que escrevo

Clarice Lispector... escrevendo!

Tudo o que não posso dizer, escrevo. Tudo o que não quero dizer, escrevo. Também escrevo coisas que posso, devo e quero dizer. Essas eu publico. O resto eu guardo, escritas em folhas de agenda, guardanapos, embalagens, papéis rasgados, amassados, rotos, de diferentes cores, texturas e tamanhos – variam conforme a ocasião, a necessidade e meu estado de espírito. Algumas coisas eu escrevo apenas na mente, e as levo para onde vou. Outras mantenho online, e as releio quando minha emoção pede. Outras, ainda, ficam esquecidas até que casualmente as reencontro. Não importa o momento em que as tenha escrito, nem a mídia onde as registrei, nem mesmo a forma como as escrevi: a releitura sempre compensa.

sexta-feira, junho 12, 2009

Confissão

Meu relacionamento com pessoas do sexo masculino sempre foi um tanto quanto conturbado. Um misto de repulsa e desejo. Um ódio alimentado que sucumbiu à percepção da fragilidade da paixão. Ainda assim resisti. Não iriam me ter sem sofrimento nem dúvida nem tortura. Afinal, para que eles servem? Não vivi bem até aqui, sozinha, com mãe e irmã? Não há espaço para você. E assim se arrastaram os meses. E assim fui tapando o sol com uma peneira bem fajuta. Quando dei por mim, estava experimentando um incômodo nunca antes sentido, uma saudade de não sei o quê, uma vontade de voar sem igual, uma cumplicidade que não sabia poder existir. E ao perceber isso, me apavorei. Mas não fui covarde, decidi tentar. Larguei todas as minhas crenças, preconceitos, ideais, medos... Medo não, melhor diria pavor de me machucar. Sim, o que construí para mim foi um pavor imenso de me entregar, de deixar meu coração indefeso nas mãos de um monstro, ou seja, um homem. E antes que pudesse voltar atrás, decidi me entregar. Vivi a coisa mais linda que eu jamais poderia imaginar. Descobri sentimentos e sensações que se eu pudesse obrigava a todos a experimentar. Simplesmente não dá para explicar em palavras. Apenas quem já amou e foi correspondido à altura sabe do que eu estou falando. E quando isso ocorre na adolescência, quando o mundo é novo, o corpo é novo, a mente é nova, tudo toma uma dimensão indescritível. É como se você respirasse o ser amado. Ser compreendido sem palavras, ser surpreendido com a perfeição da escolha, compartilhar lágrimas de puro êxtase... Não, não dá para explicar. Isso precisa ser vivenciado. Uma vez eu vi o amor: tive uma epifania enquanto era rodopiada no ar. Foi como se não possuísse corpo, não havia peso, havia apenas um campo ensolarado coberto de tulipas... amarelas. Descobri então que o amor é amarelo, e não vermelho como imaginava. E descobri também que o amor não é cego e nem transpõe todas as barreiras. O amor machuca, humilha, te destrói para te fazer cativo. Mas te eleva a níveis de felicidade não alcançados de nenhuma outra forma. Mas como então viver o lado bom sem o lado mesquinho do amor? Sinceramente não sei... Parece que os relacionamentos possuem uma forma bem peculiar de se deteriorarem. É peculiar porque nós vemos, eu vejo, você vê. Mas ou ignoramos a situação ou até mesmo contribuímos para a ruína. Viver na corda bamba cansa. Mas ainda não encontrei nada mais recompensador na vida. Talvez o amor incondicional, pelo próximo, pelo estranho, aquele amor que não espera nada em troca. Mas esse amor é tão difícil de praticar... Por mais que pratique esse amor universal, sinto falta do amor a dois, do amor romântico, do amor paixão. Sempre fui uma sonhadora. Mas antes da entrega, sonhava com os dois pés fincados no chão. Sonho é sonho, realidade é sofrimento. Após minha vivência inesquecível, maravilhosa, conturbada, violenta, surpreendente, agonizante, torturante, deliciosa, resolvi nunca mais deixar de viver nada por medo. Não há recompensa por fazer nada. Não há ganho sem perda. Não há escolha que não exclua algo. E, principalmente, não há acerto sem erro. Ao ficar escondida em casa por medo de se entregar e errar, uma pessoa nunca irá acertar. Não se acomode no marasmo do medo da dor. Entregue-se, machuque-se, levante-se, extasie-se, brigue, erre, aceite, acerte. Então, está esperando o quê?

quinta-feira, junho 11, 2009

Bisturi sem gume

Hoje acordei com uma estranha vibração por todo o corpo. Algo como um formigamento sem dor, ou um choque elétrico sem machucar. E vibrando fiquei por cerca de duas horas, entre cochilando, delirando ou pensando, a vibração descompassada, pois não seguia a respiração ou o pensamento. Sonhei enredos esquisitos, como filmes de Bergman ou Kubrick. E ria ou me entristecia ao acordar, ao bel prazer do rumo de meus devaneios. Assim fiquei até decidir lutar contra a mesmice de um dia fadado ao lugar comum. Levantei-me e joguei-me à vida, ignorando a chuva fina, as nuvens esmaecidas e a névoa branca do dia cinza. As ruas pareciam gigantescos incensários, opacas e esbranquiçadas. Por diversas vezes vacilei em meus pensamentos – deveria eu ter cedido ao destino de um dia comum? Não... acho que não. A tarde me trouxe sorrisos, raiva, arrependimento, gratidão, compaixão, esperança, gargalhadas, quase lágrimas e muita, muita esquisitice. Ainda estou esquisita. É como se movesse meu corpo embaixo d’água. Caminho como se minhas pernas pesassem; obedecem com dificuldade. A tonteira que me acompanha se intensificou junto com o enjôo, e a dor nas têmporas veio após a sensação de desmaio. Não sei o que tenho, mas algo está muito errado. Aliás, algo continua muito errado. As mãos frias, os arrepios, o torpor. A vibração se foi, mas deixou algo tão complexo e incômodo em seu lugar. Há algo em mim que preciso expurgar. Enquanto eu nutrir qualquer indício de apego a ele, não posso extirpá-lo. Meu bisturi perdeu o gume.

quarta-feira, junho 10, 2009

Tão óbvio



A verdade é tão clara que até estranhos veem.
Mas mesmo assim insistimos em não enxergar.
bitter sweet taste