quinta-feira, dezembro 01, 2011

Homens Incompletos

A devoção masculina pelo sexo feminino é algo verdadeiramente belo. O olhar embevecido, a gentileza dos gestos, o estar disponível incondicionalmente, o ouvir apenas por ouvir, a admiração confessa, enfim, o reconhecimento do 'quero te fazer bem, viu?'.

Nem sempre verdadeira, muitas vezes superficial e intermitente, ainda assim sempre bem-vinda. Aceitos todos os tipos: sazonais, contínuas, moderadas, exageradas, despretensiosas, com segundas, quiçá terceiras intenções. Aceito todas as manifestações, inventadas ou não, possíveis ou não. O sublime está nos fatos e atos, e não nas motivações implícitas. O maravilhoso da situação é o agora, sem nunca antes ou depois. Devoção não precisa de histórico, de justificativa, de prazo de validade. É simples e generosa, abstrata e encantadora.

Racionalizar sobre a devoção descompromissada é fórmula certa para a frustração. É como degustar um prato e ficar questionando as condições de higiene em que ele foi preparado ou as calorias a mais que ele representará em seu corpo futuramente. Coma. Deguste. Não questione. Apenas esteja ali e recebe o que te é dado. A devoção masculina deve ser aproveitada enquanto presente, pois ela, como regra geral, acaba sem aviso.

É interessante notar as situações que desencadeiam a morte da devoção. Basta o feminino ser sentido como demasiadamente disponível, ou dependente, ou exagerado, que misticamente nem os mais sinceros devotos sobrevivem. Algo visivelmente se altera. A devoção mingua. A fantasia acaba. A admiração transforma-se em lugar-comum. A disponibilidade muda para impaciência. A gentileza é substituída por atos mecânicos.

A natureza humana é implacável em sua cadeia de reações. Por isso, menina, aproveite a devoção masculina. Bela, efêmera, previsível. Incompleta.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Atom Heart Mother

Quantas vezes cruzarei o limiar de tua porta, só para desvendar meus próprios limites?

quarta-feira, outubro 19, 2011

Confissões

Devo confessar minha fraqueza, minha fragilidade em ansiar pela conquista, pelo triunfo, ao mesmo tempo em que minha insegurança torna-me refém de mim mesma. Detenho alguns poderes, e todos parecem subjugados pela paixão. Lágrimas afloram quando penso em como sou cativa do amor. É irresistível amar. É dolorida a ânsia por ser amada. É confusa a troca entre dois amantes. E, muitas vezes, é completa.

Sensação de proteção, paz, serenidade. Corpos exaustos, pingando um misto de ternura e paixão. Uso e sou usada, domo e sou domada. Amo. Enlouqueço. Descanso. Um sorriso vago e sereno toma conta de mim. Estou satisfeita, plena. O cheiro do amor me envolve e aprisiona. Sou feliz. Feliz no mundo que criei para mim.

(em 03.07.11)

O que sou eu? Boa parte de minha sensualidade não estava diluída nos êxtases da escrita, da beleza, de sensações sem clímax? Não passo a maior parte do tempo em suspense quanto ao mundo ou à margem? Será que não sou outro Rimbaud, capaz apenas de inocência ou de obscenidades, sem nuances humanas?

Anaïs Nin


Ao longo de minha batalha para esposar a vida, violentei alguma parte de mim que não compreendo.

Anaïs Nin

terça-feira, outubro 18, 2011

A Mulher de Trinta Anos

Tomando de empréstimo o título de famoso livro de Balzac, descrevo a minha percepção dos trinta anos. Época em que já temos tempo suficiente de vida para aprendermos lições e ainda tempo o bastante para cometermos alguns erros novamente.

Segurança de mulher, esperança de menina. Insegurança de menina, racionalidade de mulher. Sensações conflitantes. O corpo dá sinais de cansaço e a mente sente-se ainda jovem e ávida por novidades. De todos os lados chegam percepções desconexas: 'já vivi muito'; 'tenho muito a viver'.

Dos vários ciclos de construção e desconstrução da vida de uma pessoa, este parece ser o mais devastador. Olho para certezas antigas como se olhasse para jornal velho. Vejo sonhos passados perderem o sentido, ou tornarem-se irreais.

Procuro significado ou continuidade nos acontecimentos e não os encontro. Manias enfraquecem, mitos se perdem. Duvido de minhas convicções, testo os limites imemorialmente impostos por mim mesma, vejo que há vida além do meu quintal. E agora? Novas crenças, metas, objetivos?

Não, não tão rápido. Vislumbro um mundo de possibilidades, mas a devastação foi grande o suficiente para aturdir e nublar minhas vontades. Preciso de material para reconstruir, mas tenho em minhas mãos dúvidas e incertezas. A mulher de trinta anos tem certeza de que precisa e consegue chegar a algum lugar, mas ainda não sabe ao certo onde fica esse lugar. O paradoxo paralisa. A inquietação impulsiona.

Novos sonhos, novas crenças, manias e mitos. Quem entende a mulher de trinta anos?

(em 25.03.11)

Escolhas & Negação

Tenho feito grandes escolhas na vida, apesar de insistir em fingir que as escolhas me fizeram.

(em 04.05.11)

Talvez uma forma de não sentir tanto as mudanças... talvez uma forma de não me sentir responsável por elas... é como se eu às vezes sentasse diante de uma tv desligada e, ao ver minha imagem refletida, assistisse a minha vida passando... mas sei que não é assim... nunca menospreze o poder da negação.

segunda-feira, junho 13, 2011

Carta a mim

Se eu errar, me conduza. Mas, antes de tudo, me perdoe. Pois todo o mal possivelmente feito a você, sinto duas vezes mais em mim. Não se machuca o ser amado impunemente. Confie em mim. Arrependimentos ocorrem e, de todos, o meu maior foi ficar longe de você.

(em 17.05.11)

quarta-feira, maio 25, 2011

Ser mulher doi

Ser mulher doi. E não estou falando de opção sexual. Muito menos de dor física. Simplesmente doi. Simplesmente sabemos como fazer doer. Dor muda, solitária, quase transparente. Só pode ser vista em alguns breves momentos de descuido, num relance, num olhar mais demorado. E, no instante seguinte, ela se foi. A dor. Mas também a capacidade de chorar.

(em 03.05.11)

terça-feira, abril 19, 2011

Escolhas

"O problema, falando simplesmente, é que não podemos escolher tudo ao mesmo tempo. Assim, corremos o risco de ficar paralisados pela indecisão, com pavor terrível de que cada escolha esteja errada.(...) As ocasiões em que realmente optamos e depois sentimos ter assassinado algum aspecto do nosso ser ao tomar aquela única decisão concreta são igualmente inquietantes. Quando escolhemos a Porta Número Três, tememos matar uma parte diferente de nossa alma, mas igualmente decisiva, que só poderia se manifestar se tivéssemos entrado pela Porta Número Um ou pela Porta Número Dois."

Liz Gilbert

segunda-feira, abril 18, 2011

Eu não sou você

Me chame de antiquada, brega, cafona. Diga que meus anseios são ultrapassados. Ria de minhas pequenas frustrações, ou talvez só olhe-as com desdém. Desmascare minha frieza autosuficiente, escarneça de meus ideais declarados.

Eu não sou você. Eu minguo sem carinho, sufoco sem atenção. Quero amor exagerado e incondicional, mesmo que seja eterno apenas enquanto dure. Quero o sabor de saber que você fez todo o possível para estar ao meu lado. E mais: que você não preferiria estar em nenhum outro lugar. Quero flores, mimos, bilhetinhos de amor sem motivo. Quero acordar ouvindo sua respiração profunda e serena. Quero criar laços tão compridos que eu tropece e me enrosque neles. Quero confundir felicidade com o seu cheiro. Quero tocar o céu através de suas mãos. Quero mergulhar em você até não reconhecer mais as fronteiras de meu corpo.

Eu me entreguei a você sem pedir nada, embriagada em sua simples existência. Agora confesso, um pouco envergonhada talvez, que quero sim algo em troca. Quero todo o amor que me julgo capaz de receber.

(em 05.04.11)

Assim vai meu coração

A sua insegurança
alimenta a minha.
De tão segura,
perco totalmente a razão.
De tão contente,
perco o sorriso e a paz.
De um extremo a outro,
assim vai meu coração.

(em 21.02.11)

Quero paz?

Eu não me sinto à vontade. Nem segura.
Quero paz. Quero paz?

(em 02.11)

Sinto muito

Dilacerada pela dor, olhos turvos pelas lágrimas, só consegui estender a mão para alcançar um pedaço de papel e dar vazão a meu sentimento. E foi isso que escrevi naquele dia [03.01.11]:

Sinto muito por ter me apaixonado por você. Sinto muito mesmo. Nunca quis te machucar de verdade, a não ser por um medo irracional de que você me machuque de novo.

Misto de angústia e culpa por te amar. Angústia porque não importa o que eu faça, você não consegue se sentir à vontade com meu amor. Culpa por talvez te forçar a me dar algo que nunca terei.

Eu sou forte para bancar meus sentimentos. Mas sou fraca em insistir quando não pareço correspondida. Triste nadar muito e morrer logo depois da arrebentação. Queria ao menos pisar na praia com você.

(em 04.04.11)

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Sempre passa

Você já se sentiu como se preferisse passar mais tempo com outra pessoa do que com si mesmo? E quando a falta se torna angustiante como se o próprio ar faltasse? Quando a saudade se transforma em dor física, os minutos escoando lentos como anos, e eu a me perguntar o que estou esperando.

Mesmo sabendo que amanhã lembrarei de ti com um olhar carinhoso e um sorriso calmo e singelo nos lábios, é o hoje que me desatina. É o querer ver chegar amanhã, e se te encontrarei em alguma dobra de meu tempo. É o antes e o depois fundindo-se, sem ter tempo para o agora.

Pare! Espere! - grita minha metade lúcida. Avance! Viva! - grita a outra , fingindo nada temer. Ao cair de todas as noites, nos momentos mais íntimos, quem falará mais alto? Sinto-me acanhada, desprotegida. Sinto-me confiante, esperançosa. Sinto-me confusa, desconcertada. Sinto-me tranquila, o tempo passa.

E nada passa. E tudo passa. Sempre

(em 01.02.11)

domingo, janeiro 16, 2011

Atenção Negligenciada

Eu cortei seus pulsos. Cortei de propósito.
Cortei por atenção negligenciada.
Cortei com lâmina afiada e lavei com cachaça.
Ela olhou surpresa. Você ria.
E a mesa se encheu de sangue e álcool.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Volte

Por que a ausência doi tanto? Eu espero, eu esperei, eu sigo esperando... O vazio me consome. Vazio de quê? Vazio de quem? De mim? De você?

"Eu não moro mais em mim." Para onde eu fui? Do que eu fugi? Volte, volte, volte. Não suma quando eu preciso de você. Quem irá responder minhas perguntas? Quem irá secar minhas lágrimas? Volte...

Perdi-me pelo caminho e não sei mais voltar. Preciso de ajuda. Por favor. Meu choro é monótono e cansativo. As palavras não saem. Me engasgo com elas, tusso e volto a chorar compulsivamente.

Por favor, volte, estranha, volte.