domingo, setembro 19, 2010

Ainda não descobri

Eu ainda não descobri o porquê, mas gosto muito de você.
Você foi o responsável por alguns dos piores momentos da minha vida, e por alguns dos melhores também.
E não estamos falando de uma menininha na puberdade, sem vivência pregressa.
Essa dualidade nos sentimentos, nas ações, não me permite ficar em paz. Também não consigo me afastar.
Já não sei o que fazer ou como agir. Às vezes finjo que está tudo bem, em outras não consigo disfarçar a tristeza e preocupação.
Onde isso irá nos levar?
Não consigo ficar perto, não consigo ficar longe. Não consigo esquecer. Não consigo aceitar.

"Ele some sem querer, sem avisar. Espero. Tenho a sensação de que cada minuto de espera é um ano, uma eternidade. Cada minuto é lento e transparente como vidro. A cada minuto que passa, vejo uma fila de infinitos minutos, à espera. Por que ele foi aonde não posso ir atrás?" Audrey Niffenegger - A mulher do viajante no tempo

A busca por si mesmo é um caminho solitário.

O amor depois do amor

Há de chegar a hora
em que, com alegria,
você vai se cumprimentar ao chegar
à porta de casa, em seu próprio espelho,
e cada um sorrirá diante da acolhida do outro,

e dirá, sente-se aqui. Coma.
Você amará de novo o estranho que era si mesmo.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
a ele mesmo, ao estranho que amou você

desde que você nasceu, que você ignorou
por outro, que o conhece de cor.
Tire as cartas de amor da estante,

as fotografias, os bilhetes desesperados,
tire sua própria imagem do espelho.
Sente-se. Celebre sua vida.

(Derek Walcott)

Para sermos dois, temos que antes ser um.
Eu ainda não descobri o fim, mas gosto muito de mim.

Gratidão

Ainda lembro o dia em que saí daquele carro desorientada, tropeçando em minhas próprias pernas, enxergando pouco além da névoa cinza que nublava minha vista. Sentia o corpo desfalecer, revoltar-se contra meus comandos. Queria sumir dali o mais rápido possível, ainda que não soubesse ao certo para onde ir.

Hoje, racionalmente consigo contabilizar: foram somente vinte e cinco dias. Devastadores vinte e cinco dias. Tenho a sensação de que vivi no limbo por pelo menos seis meses. Como nossa mente prega peças em nós mesmos. Perdi totalmente a noção do tempo, as horas arrastando-se dolorosamente.

Vi-me em um vazio a que não estava acostumada, e não conseguia sequer entender como eu havia parado ali. Era difícil até mesmo respirar. A mente sabotando-me o tempo todo, a exaustão dominando meu corpo. Sem dormir ou comer, era questão de tempo padecer de males maiores. Ainda não sei de onde tirei forças para continuar. Provavelmente dos amigos, cujos semblantes preocupados refletiam como espelhos. Sempre disse que chegar ao fundo é bom para ter impulso para voltar. Acho que mudei de idéia, pois passei um tempo acreditando piamente que não conseguiria mais voltar. Não ter esperança é simplesmente horrível. Acordar e dormir torcendo para que o outro dia não chegue, com medo de não ter mais forças para lutar. Pura exaustão, mente e corpo. Acho que nesse período até a alma tirou férias.

Nem parece que há pouco mais de uma semana era assim que me sentia. Hoje consigo lembrar os fatos como se aquela fosse outra pessoa. Sensação esquisita. Agradeço a todos os que se esforçaram para me fazer enxergar que aquela era outra pessoa, doente. Aos que me ouviram com carinho e atenção, aos que puxaram minha orelha, aos que me viram chorar e me fizeram sorrir.

Sinto-me grata a todos. E, principalmente, a mim, que sem a força de vontade descomunal, não teria mudado nada.

(em 07.09.10)