quarta-feira, setembro 25, 2013

A nossa vitória de cada dia

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

(Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)

segunda-feira, setembro 16, 2013

Novamente

Abaixo a cabeça com o peso das lágrimas que queimam minha pele. Não há motivo para este rio de lava inconsolável. Não há motivo para choro ou tristeza, a não ser os por mim inventados. A criatividade poderia estar focada em algo melhor, não acha?

E ocorre que esta mesma criatividade transforma-me em um ser pesado, esquecido, irritante. E este ser não sou eu. É imagem projetada da dor infundida por caminhos inconfundíveis. Caminhos que prometi não mais trilhar. Caminhos onde não preciso de mapa para me orientar, mas nenhum mapa do mundo me faz sair impune.

Não gosto de voltar a escrever por desabafo. Ainda mais por este tipo de desabafo. Queria escrever por delírio e alegria, sublimação e gozo. Mas hoje escrevo por coisas que não consigo mudar. Novamente.