sábado, maio 09, 2009

Eternamente esse gosto de nunca e de sempre



Esquisito. Dia esquisito. Sentimento esquisito.
Palavras esquisitas que tive que ouvir.
Sons esquisitos que tentei ouvir.
Mundo esquisito que ora me acolhe ora me engole.
Sucumbi hoje. Chorei hoje. Sorri hoje.
Ri de coisas sérias e verti lágrimas por coisas bobas.
Desejei dizer tudo o que sinto. Desejei me esconder da vida.
Sensação de que pode ser a última vez.
Preciso dizer logo, algo me diz que não haverá mais chance.
Não quero mais sentir esse sentimento esquisito.
Não quero mais achar que não há outra chance.
"Eternamente esse gosto de nunca e de sempre.
"

Ah, sim, a velha poesia...

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora, os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhes grilos aos milhões um lápis verde um retrato
amarelecido um velho ovo de costura os teus pecados
as reivindicações as explicações - menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos...

Pois bem,
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece que nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

(Mario Quintana)

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