sábado, novembro 25, 2006

O Tílburi de Praça

“- Meu senhor, o coração da mulher é uma coisa complicada. Não se pode estudar e definir de uma só maneira, mas, no ponto da sua consulta, eu creio que não erro, com esta exposição de minha experiência: Há corações fechados que são como portas de que se perde a chave. Ninguém lhes entra, sem que um milagre da sorte ensine como. Então, é a imensa ventura. Há corações de uma só porta, como as casas seguras, onde a gente entra, sem custo, instala-se, faz família dentro, e aí chega a netos tranqüilamente. Há corações com duas portas, que dão entrada a um afeto pela frente, diante da sociedade, e a outro afeto pelos fundos, diante da indiscrição da Candinha e seus filhos. O segredo destes amores de acordo é possível, mas, às vezes, mesmo em segredo eles são felizes. Há corações hotéis, onde todo o mundo entra, escandalosamente, quase simultaneamente, pagando à parte o seu cômodo, sem grande intriga, nem ciúmes. Há corações bodegas, que é um horror... Mas, há uma espécie curiosa de corações, um produto das sociedades desenvolvidas, para a qual chamo a atenção – é o coração volante, o coração rodante, que aceita amor, mas que não fixa, daqui para ali, a tanto por hora, a tanto por mês, o coração tílburi de praça, que aceita o passageiro em qualquer canto, que desaparece, que passa pela gente, às vezes, juntinho, sem que se possa ver quem vai dentro...”

(Raul Pompéia)

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